Eu, cidadão-não-cidadão, continuo na mesma. Não fodo com ninguém, e ninguém fode comigo também. Nem calor aqui dentro eu tenho mais. E se não existe calor, de onde brotará o amor? Aquele deus pagão do qual todos falam, o Amor, onipresentre nas mentes dos apaixonados, que se tornam infantilizados tamanha é a simplificação de suas atividades mentais nesse período rosa.
Meu período nao é rosa, é negro. Sem preconceito contra afrodescendentes pois o meu é negro. Aquele escuro em que se atola todo o corpo. Escuro denso que sinto roçar os pelos. Monstro preto, amorfo, tangendo minha superfície, esperando meu primeiro tropeço para rir bem alto e meter medo. Minha vida não é rosa, é negra, e entre o negroeiro irei pairar, caminhando cuidadosamente para não me machucar. Tem buracos, espinhos ocultos, tem mostrengos sacanas sacudos... Mas que não passem perto que eu os esmago as bolas!
Estarei vagando lentamente imerso na matéria escura semigasosa. Tal matéria não é apenas gás, posto que tem alma, tem vida, e vive a me vigiar. Vigiar para quando no primeiro passo em falso... "Hahahahahahaha"! A gargalhada infernal a me atormentar e confundir o meu caminho, por não querer me devolver à luz.
Sob a luz nos enxergamos, nos reconhecemos. Sob a luz nosso espírito fica autolimitado à embalagem corpórea, preso e seguro. Na lama gasosa não existe fronteira entre meu espírito e esse vapor detestável e maligno. Mas tudo que aprendi, quando sob a luz, haverá de servir para me livrar desse preto manto.
Aprendi que, com ajuda, posso iluminar minha mente e meu caminho. Posso afastar os vaporosos seres malignos que encobrem tudo e fazem daqui, escuridão eterna. A escuridão é eterna mas eu não sou eterno. Nem mesmo minha estadia aqui será do tamanho da minha vida. Não será, não poderá ser pois, se assim for condenado, eu acabo comigo mesmo antes que a sombra me sugue até a morte. Morte longa e dolorosa, uma relação parasitária na qual meus fluidos vão secando e minha luz se apagando.
Aqui existe um vazio que sob a luz não há. A luz penetra e faz-se matéria, enchendo a gente de energia nova para seguir em frente na batalha que é a vida. A luz filtra nossas células, nos desintoxica dos vapores negros, clareia e esclarece as pessoas, mostra-lhes o rumo oferecendo-lhes uma bússola que não poderia ser usada no escuro. A luz nos mostra o caminho para o melhor caminho, para as melhores companhias e para os mais extasiantes prazeres - combustíveis da alma.
A luz nos trás de volta da lama escura e atmosfera impura. Mas essa luz não é solar, é uma radiação metafísica. E quando essa fonte luminosa natural se esgota dentro de nós, vamos, aos poucos, indo para os cantos, depois para lonjuras, evitando pessoas iluminadas e a luz solar.
Os vapores negros de debaixo da terra sentem o cheiro de pessoas enfraquecidas, anuviadas e desnorteadas, que não sabem mais usar sua bússola. Entretanto, lá na lama, lá no fundo, a bússola seria mesmo inútil. Por isso, é pra lá que muitos vão por sentirem que é seu novo hábitat, acolhedor de sua nova identidade. Sem bússola, sem luz, vão para o fosso. Vão de encontro a um ambiente que corresponde ao extremo vazio interno, e por lá ficam até que um lampejo de luz se acenda e seja forte o suficiente para guiá-lo de volta até o topo. Longa caminhada...
Muito mais doloroso sair do que entrar. A entrada é a queda livre, a saída uma escalada com pouca luz e bússola quebrada. E nessa caminhada, por alguns instantes, a única luz pode até se apagar. E nesse breve momento, corre-se o risco de despencar e se enterrar ainda mais fundo na lama. Mais fundo do que seus companheiros de escuridez.
E até que alguma alma do país das luzes estenda a mão que salva, com toda força e vontade, por lá ficarão até a morte. Pseudo-existirão até morrerem de tédio, tristeza, suicídio, homicídio ou inanição. Para trazê-lo de volta é preciso coragem e amor pelo penumbro. Há que se doar parte da sua própria luz. Não se deve temer o abalo que sofrerá a própria aura, assim que exposta aos fluidos escuros.
Darkos: aqueles que têm a vida toda para ser vivida, mas não se enxergam como merecedores. Sentem na pele, mais do que ninguém, a perda dos pequenos prazeres da vida. No fundo, querem muito viver mas, sem luz, a única saída que alguns enxergam para o fim de tanta dor é a morte...
Todos sabem de sua existência, mas poucos são iluminados o suficiente para querer ajudá-los. São considerados a escória, seres contaminantes e, portanto, interessa a muitos que continuem a morar no fosso penumbro, de atmosfera imunda, para sempre.
A luz da qual os darkos têm fome não é elétrica, nem solar, é aquela que emana do contato próximo com o calor humano. Lá, no fosso, o frio é de rachar os lábios e de trincar os ossos dos mais fracos. Aquele é o ferro-velho do seres orgânicos de alma ainda viva. No fosso, ninguém presta, ninguém faz, ninguém movimenta, ninguém produz e a ninguém interessa. É onde os que vieram com defeito de fabricação são descartados.
Fever Ray - If I Had A Heart
