terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Neurorréia nº1: Os Darkos

Em meados do ano passado (2009) me foi receitado medicamento para combater minha insônia. Curiosamente ele tinha um certo efeito alucinógeno se eu me mantivesse acordado depois de tomá-lo. De alguma forma, apesar do descontrole motor, meus pensamentos ficavam muito mais acelerados e ideias brotavam numa velocidade maior do que minhas mãos conseguiam digitar. Certa vez, num dia de muita depressão e sob efeito do tal remédio, escrevi um texto bizarro e bastante metafórico sobre a própria depressão. Depois de são pude editá-lo melhor. Os neologismos são propositais, mas não os erros de sintaxe e inadequação à nova ortografia. Dêem um desconto, ok?. Eis o resultado:

Eu, cidadão-não-cidadão, continuo na mesma. Não fodo com ninguém, e ninguém fode comigo também. Nem calor aqui dentro eu tenho mais. E se não existe calor, de onde brotará o amor? Aquele deus pagão do qual todos falam, o Amor, onipresentre nas mentes dos apaixonados, que se tornam infantilizados tamanha é a simplificação de suas atividades  mentais nesse período rosa.

Meu período nao é rosa, é negro. Sem preconceito contra afrodescendentes pois o meu é negro. Aquele escuro em que se atola todo o corpo. Escuro denso que sinto roçar os pelos. Monstro preto, amorfo, tangendo minha superfície, esperando meu primeiro tropeço para rir bem alto e meter medo. Minha vida não é rosa, é negra, e entre o negroeiro irei pairar, caminhando cuidadosamente para não me machucar. Tem buracos, espinhos ocultos, tem mostrengos sacanas sacudos... Mas que não passem perto que eu os esmago as bolas!

Estarei vagando lentamente imerso na matéria escura semigasosa. Tal matéria não é apenas gás, posto que tem alma, tem vida, e vive a me vigiar. Vigiar para quando no primeiro passo em falso... "Hahahahahahaha"! A gargalhada infernal a me atormentar e confundir o meu caminho, por não querer me devolver à luz.

Sob a luz nos enxergamos, nos reconhecemos. Sob a luz nosso espírito fica autolimitado à embalagem corpórea, preso e seguro. Na lama gasosa não existe fronteira entre meu espírito e esse vapor detestável e maligno. Mas tudo que aprendi, quando sob a luz, haverá de servir para me livrar desse preto manto.

Aprendi que, com ajuda, posso iluminar minha mente e meu caminho. Posso afastar os vaporosos seres malignos que encobrem tudo e fazem daqui, escuridão eterna. A escuridão é eterna mas eu não sou eterno. Nem mesmo minha estadia aqui será do tamanho da minha vida. Não será, não poderá ser pois, se assim for condenado, eu acabo comigo mesmo antes que a sombra me sugue até a morte. Morte longa e dolorosa, uma relação parasitária na qual meus fluidos vão secando e minha luz se apagando.

Aqui existe um vazio que sob a luz não há. A luz penetra e faz-se matéria, enchendo a gente de energia nova para seguir em frente na batalha que é a vida. A luz filtra nossas células, nos desintoxica dos vapores negros, clareia e esclarece as pessoas, mostra-lhes o rumo oferecendo-lhes uma bússola que não poderia ser usada no escuro. A luz nos mostra o caminho para o melhor caminho, para as melhores companhias e para os mais extasiantes prazeres - combustíveis da alma.

A luz nos trás de volta da lama escura e atmosfera impura. Mas essa luz não é solar, é uma radiação metafísica. E quando essa fonte luminosa natural se esgota dentro de nós, vamos, aos poucos, indo para os cantos, depois para lonjuras, evitando pessoas iluminadas e a luz solar.

Os vapores negros de debaixo da terra sentem o cheiro de pessoas enfraquecidas, anuviadas e desnorteadas, que não sabem mais usar sua bússola. Entretanto, lá na lama, lá no fundo, a bússola seria mesmo inútil. Por isso, é pra lá que muitos vão por sentirem que é seu novo hábitat, acolhedor de sua nova identidade. Sem bússola, sem luz, vão para o fosso. Vão de encontro a um ambiente que corresponde ao extremo vazio interno, e por lá ficam até que um lampejo de luz se acenda e seja forte o suficiente para guiá-lo de volta até o topo. Longa caminhada...

Muito mais doloroso sair do que entrar. A entrada é a queda livre, a saída uma escalada com pouca luz e bússola quebrada. E nessa caminhada, por alguns instantes, a única luz pode até se apagar. E nesse breve momento, corre-se o risco de despencar e se enterrar ainda mais fundo na lama. Mais fundo do que seus companheiros de escuridez.

E até que alguma alma do país das luzes estenda a mão que salva, com toda força e vontade, por lá ficarão até a morte. Pseudo-existirão até morrerem de tédio, tristeza, suicídio, homicídio ou inanição. Para trazê-lo de volta é preciso coragem e amor pelo penumbro. Há que se doar parte da sua própria luz. Não se deve temer o abalo que sofrerá a própria aura, assim que exposta aos fluidos escuros.

Darkos: aqueles que têm a vida toda para ser vivida, mas não se enxergam como merecedores. Sentem na pele, mais do que ninguém, a perda dos pequenos prazeres da vida. No fundo, querem muito viver mas, sem luz, a única saída que alguns enxergam para o fim de tanta dor é a morte...

Todos sabem de sua existência, mas poucos são iluminados o suficiente para querer ajudá-los. São considerados a escória, seres contaminantes e, portanto, interessa a muitos que continuem a morar no fosso penumbro, de atmosfera imunda, para sempre.

A luz da qual os darkos têm fome não é elétrica, nem solar, é aquela que emana do contato próximo com o calor humano. Lá, no fosso, o frio é de rachar os lábios e de trincar os ossos dos mais fracos. Aquele é o ferro-velho do seres orgânicos de alma ainda viva. No fosso, ninguém presta, ninguém faz, ninguém movimenta, ninguém produz e a ninguém interessa. É onde os que vieram com defeito de fabricação são descartados.

 Fever Ray - If I Had A Heart

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Aos que fizeram, os créditos.

Quase dez anos se passaram desde o início de tudo e às vezes eu me pergunto como consegui chegar até aqui depois de tanta depressão, tanta falta de energia e vontade, tanta preguiça mental e com uma vida social tão subdesenvolvida. A resposta talvez esteja ao meu redor, nos amigos, na família. São tantas as pessoas me incentivando a continuar lutando nessa batalha ingrata... Não teria espaço pra citar todas elas.

Em muitos momentos me alimentei da energia que outros emanavam. Tentei me empolgar na empolgação de outros, comemorar as conquistas de outros, buscar, de alguma maneira, uma fonte de energia externa para preencher parte do meu vazio. E é por isso que, aos meus amigos, devo mais do que possam imaginar.

Eu ainda não trabalho. Portanto, não tenho meu próprio dinheiro pra gastar. Por isso meus amigos são uma das poucas coisas que eu conquistei de verdade até hoje. Conquistei e soube cultivar, para que a amizade não definhasse.

Aos meus amigos agradeço pela paciência e também peço desculpas. Na doença, a gente vai se cansando, entristecendo, encolhendo, e, por consequência, ficamos um pouco carentes. Daí surge aquela expectativa de que as pessoas sempre chegarão para perguntar como estamos, como vai a vida, numa demonstração de preocupação e carinho como se fossem obrigados nos a doar constante atenção. A esta dei o nome de síndrome do enfermo.

Esse pequeno egoísmo me faz sentir sozinho, às vezes. Sei que muitas vezes fui uma pessoa cansativa por querer um tanto de atenção. Por isso, peço desculpas. Às vezes esquecemos que existe um mundo além do nosso, que cada pessoa tem sua vida, seus problemas, suas preocupações e ocupações.

Johnny Cash - Hurt

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

De volta

Há tempos não posto aqui no blog. Sei lá, enjoei de escrever por uns tempos... Mas muita coisa aconteceu desde então.

Em relação ao tratamento, boas novas. Finalmente encontrei um medicamento que me ajudasse um pouco. Ainda continuo bem longe de poder dizer que estou realmente bem, mas ele tem me ajudado em alguns aspectos. Não me sinto mais um lixo, nem sinto tanto aquele desconforto ao sair de casa e estou dormindo melhor, talvez até demais. A parte ruim é que ele é de uma classe antiga (tricíclicos), portanto tem efeitos colaterais bem mais fortes. Continuo cercado de pessoas que me apóiam. Esse é um dos principais motivos que me faz continuar lutando por uma vida melhor.

Mas a grande novidade ainda está por vir. Entretanto, não contarei nada até que esteja confirmada. Amanhã terei uma consulta médica importante e que pode mudar completamente o rumo do meu tratamento e, quem sabe, da minha vida.