Não adianta... Por mais que eu tente, não consigo não fazer um balanço da vida quando o meu aniversário se aproxima. Essas datas que fecham ciclos como ano novo, aniversários, etc., me deixam reflexivo.
Porém, refletir demais não tem sido uma viagem muito agradável já faz bastante tempo. Penso nas coisas que eu fiz e não que eu deixei de fazer. Penso nas coisas que vivi e, principalmente, nas que deixei de viver. Sei que é meio clichê, mas quando se percebe que mais de um terço de sua vida foi vivida sob a sombra da depressão, um certo desespero surge. Ano após ano, a mesma crise se repete numa fidelidade melancólica.
Alguns amigos me conheceram antes de tudo isso começar, enquanto outros já me encontraram nesse estado. Desejo tanto que um dia todas elas possam conhecer quem sou de verdade... Sim, esse não sou eu de verdade, pelo menos não eu por completo. Esta é uma versão enfraquecida de mim mesmo, do que eu costumava ser e, principalmente, do que eu POSSO SER. Sei que terei muito mais energia pra gastar e amor pra dar quando puder voltar a ser eu por completo.
Faz tanto tempo que esse eu não sou eu, que até mesmo quem me conheceu no passado remoto já se esqueceu de quem eu era. Acabou que, na mente das pessoas, ficou gravado um Thiago triste, desanimado, instável e lento. Lamento muito.
Estou muito, muito triste. Vejo que tanta luta resultou em tão pouca coisa... Sinto-me mais esvaziado em relação aos outros, menos energético, menos consistente. Deixei de experimentar e aprender tanto... Por fim, sinto-me inútil e incompetente em quase tudo. Essa preguiça de viver levou pro ralo minha motivação e, consequentemente, meus sonhos e expectativas de futuro. Sinto como se eu tivesse parado no tempo, há vários anos atrás. Foram tantas as tentativas que deram errado. Foram tantas batalhas perdidas...
Sei que é uma doença, sei também que me esforço o quanto posso, mas ainda sim não consigo não me sentir culpado. Essa culpa maldita me persegue dia e noite como uma assombração! As cobranças de mim mesmo e dos outros me torturam todos os dias, sem descanso! Queria ser como quase todo mundo, com problemas normais, mas ainda não consigo.
Torço pra que eu não me esqueça de quem eu fui. Enquanto me lembrar disso, lutarei pra voltar a ter uma vida feliz. No dia em que eu me esquecer de como é estar bem e com vontade de viver, já terei morrido metaforicamente. Enquanto isso, me apoiarei no resquício de persistência que ainda me resta e nas pessoas que tanto me ajudam e fazem a vida valer mesmo a pena.
Esse foi um desabafo sincero.
terça-feira, 15 de junho de 2010
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Terapia 2.0: atenção aos hormônios...
Desde o final de 2009 surgiram novidades que poderiam mudar radicalmente meu tratamento contra a depressão, mas não quis postar nada até que tudo estivesse claro e confirmado por exames.
Há poucos meses descobri, através de exames de sangue, que possuo um déficit bem grande nos níveis de testosterona. Depois de alguns meses, algumas consultas ao endocrinologista e vários exames, incluindo uma ressonância magnética da hipófise, ficou claro que esta minha glândula não está produzindo gonadotrofinas o suficiente para conseguir estimular os testículos a produzir testosterona em níveis satisfatórios. Essa é uma condição chamada de hipogonadismo hipogonadotrófico. Quando essa queda hormonal ocorre depois dos 50 anos, nos homens, é carinhosamente chamada de andropausa.
Até então eu não sabia, mas a testosterona também cumpre papel fundamental em áreas como a cognição e o humor. Sua carência pode, entre outras coisas, causar depressão, apatia, ganho de peso com perda de massa muscular, queda na libido, problemas de concentração, memória, insônia, etc. Muitas vezes, o hipogonadismo é a principal explicação para depressões resistentes a medicamentos.
Em breve começarei meu tratamento de reposição hormonal com ampolas do hormônio injetadas via intramuscular. Os depoimentos que assisti de quem fez a reposição são animadores! Todos relatam uma melhora muito significativa na qualidade de vida, dentre os vários aspectos já citados acima. Estou confiante que isso poderá dar uma reviravolta no meu quadro de depressão. Não é um problema muito simples mas veio para mim como uma nova esperança, já que os ganhos com antidepressivos foram mínimos.
Esse meu caso também serve de alerta para quem enfrenta uma batalha contra a depressão e ainda não conseguiu respostas satisfatórias com os medicamentos. Se seu médico não tomar a iniciativa, peça a ele que receite exames de dosagem de todos os hormônios possíveis (T4, TSH, GH, FSH, LH, prolactina, cortisol, testosterona, etc...) e descarte logo no início qualquer causa orgânica da depressão. Isso é muito importante!
Além da reposição hormonal que começarei em breve, estou fazendo psicoterapia, o que tem sido muito interessante pra mim. Mais uma arma ao meu favor. Agora só me resta levar adiante e torcer para que os resultados apareçam dessa vez...
Sinéad O'Connor - It's All Good
Há poucos meses descobri, através de exames de sangue, que possuo um déficit bem grande nos níveis de testosterona. Depois de alguns meses, algumas consultas ao endocrinologista e vários exames, incluindo uma ressonância magnética da hipófise, ficou claro que esta minha glândula não está produzindo gonadotrofinas o suficiente para conseguir estimular os testículos a produzir testosterona em níveis satisfatórios. Essa é uma condição chamada de hipogonadismo hipogonadotrófico. Quando essa queda hormonal ocorre depois dos 50 anos, nos homens, é carinhosamente chamada de andropausa.
Até então eu não sabia, mas a testosterona também cumpre papel fundamental em áreas como a cognição e o humor. Sua carência pode, entre outras coisas, causar depressão, apatia, ganho de peso com perda de massa muscular, queda na libido, problemas de concentração, memória, insônia, etc. Muitas vezes, o hipogonadismo é a principal explicação para depressões resistentes a medicamentos.
Em breve começarei meu tratamento de reposição hormonal com ampolas do hormônio injetadas via intramuscular. Os depoimentos que assisti de quem fez a reposição são animadores! Todos relatam uma melhora muito significativa na qualidade de vida, dentre os vários aspectos já citados acima. Estou confiante que isso poderá dar uma reviravolta no meu quadro de depressão. Não é um problema muito simples mas veio para mim como uma nova esperança, já que os ganhos com antidepressivos foram mínimos.
Esse meu caso também serve de alerta para quem enfrenta uma batalha contra a depressão e ainda não conseguiu respostas satisfatórias com os medicamentos. Se seu médico não tomar a iniciativa, peça a ele que receite exames de dosagem de todos os hormônios possíveis (T4, TSH, GH, FSH, LH, prolactina, cortisol, testosterona, etc...) e descarte logo no início qualquer causa orgânica da depressão. Isso é muito importante!
Além da reposição hormonal que começarei em breve, estou fazendo psicoterapia, o que tem sido muito interessante pra mim. Mais uma arma ao meu favor. Agora só me resta levar adiante e torcer para que os resultados apareçam dessa vez...
Sinéad O'Connor - It's All Good
domingo, 21 de março de 2010
Neurorréia nº4: Fêmeas, Taras e Touros
Pelos e pesado torso d'ouro em torno da flor, até então guardada.
A fala da floreada fêmea é de quem vai e quer que venha.
No estilo taurino de se fazer aquilo que todos gostam, que todos gozam, foi o touro.
Robustaurus são grandes e querem se mostrar, enquanto ninfas gostam de vê-lo crescer pra se enroscar.
Taurus galopante, gemendo na moita enquanto a flor se despetala. Bate asas como se quisesse alcançar o gemido que acabou de escapar, o mugido que acabou de soprar.
Em seu crânio robusto e molhado em dobro de resina salina, chifres duelam com os galhos tortos.
E mais um mugido escapa com o muco e a última remessa de leite sagrado, a ser cuidadosamente envasado na ânfora ventral feminina.
A Invasão e a infecção levarão à germinação de um parasita taurino. Seus chifres, ao ver luz, dilacerarão para sempre, e por inteiro, a flor que acabara de se abrir, dando vida ao seu fruto há muito fecundo.
Filho do mundo.
Massive Attack - Antistar
A fala da floreada fêmea é de quem vai e quer que venha.
No estilo taurino de se fazer aquilo que todos gostam, que todos gozam, foi o touro.
Robustaurus são grandes e querem se mostrar, enquanto ninfas gostam de vê-lo crescer pra se enroscar.
Taurus galopante, gemendo na moita enquanto a flor se despetala. Bate asas como se quisesse alcançar o gemido que acabou de escapar, o mugido que acabou de soprar.
Em seu crânio robusto e molhado em dobro de resina salina, chifres duelam com os galhos tortos.
E mais um mugido escapa com o muco e a última remessa de leite sagrado, a ser cuidadosamente envasado na ânfora ventral feminina.
A Invasão e a infecção levarão à germinação de um parasita taurino. Seus chifres, ao ver luz, dilacerarão para sempre, e por inteiro, a flor que acabara de se abrir, dando vida ao seu fruto há muito fecundo.
Filho do mundo.
Massive Attack - Antistar
terça-feira, 16 de março de 2010
Não sinto
Sinto falta daquele frescor, sabe?
Daquela leveza de viver
Aquela vontade de amanhacer
Sinto falta daquela fome, sabe?
Daquela vontade danada
Aquele vício bom
Sinto falta daquela sede, sabe?
Aquele encanto em aprender
Sinto muito...
Moby - Pale Horses
Daquela leveza de viver
Aquela vontade de amanhacer
Sinto falta daquela fome, sabe?
Daquela vontade danada
Aquele vício bom
Sinto falta daquela sede, sabe?
Aquele encanto em aprender
Sinto muito...
Moby - Pale Horses
sexta-feira, 12 de março de 2010
Sistema Único de Saúde. Amém! (Parte 2)
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!
PS: Se eu fosse famoso isso seria um poema.
Primal Scream - Pills
PS: Se eu fosse famoso isso seria um poema.
Primal Scream - Pills
sábado, 6 de março de 2010
Smalltown boy
Nascido no maior país da América do Sul, o país do Sol.
Em meio a um semi-árido cultural, teve que sair de casa cedo,
em busca de novos horizontes: um Belo Horizonte.
Ovelha branca da família. Filho bonito, educado, inteligente.
Futuro promissor!
Confiante em si, apesar de tímido.
Agora, em novas terras, conheceu a Doença.
Smalltown boy percebeu que seu alicerce fora construído sobre pântano.
Cometeu seus erros, caiu em tropeços... Afundou.
Seu promissor futuro não vingou.
Não se tornou ovelha negra, mas de certo tom acinzentado, sem graça.
Nem lá, nem cá.
Mas sua história não acaba aqui.
Ele continua, ainda tenta.
Electronic - Second Nature
Em meio a um semi-árido cultural, teve que sair de casa cedo,
em busca de novos horizontes: um Belo Horizonte.
Ovelha branca da família. Filho bonito, educado, inteligente.
Futuro promissor!
Confiante em si, apesar de tímido.
Agora, em novas terras, conheceu a Doença.
Smalltown boy percebeu que seu alicerce fora construído sobre pântano.
Cometeu seus erros, caiu em tropeços... Afundou.
Seu promissor futuro não vingou.
Não se tornou ovelha negra, mas de certo tom acinzentado, sem graça.
Nem lá, nem cá.
Mas sua história não acaba aqui.
Ele continua, ainda tenta.
Electronic - Second Nature
quinta-feira, 4 de março de 2010
Neurorréia nº3: Mesa
Em cima da mesa somente minha tristeza. Aquela tristeza que você conhece bem, nesta mesa que foi sua. Pegue uma cadeira, sente-se ali. A melhor vista para minha desgraça. O melhor ângulo para que vejam sua eterna graça.
Tudo o que precisa saber de mim está sob esse leite derramado. Tudo o que quiser saber de mim está por dentro desse queijo amargo. A massa amarelada, insossa e quebradiça, é minha carne. O soro azedo, o meu sangue.
Ele fede, cheira a algo que deu desastrosamente errado. Ele sou eu. Por isso não tive coragem de oferecê-los aos ratos do meu quintal.
Preciso ver de perto este laticínio amarelar, emborrachar e mofar aqui em cima desta mesa. Quero ver, de perto, o fim de um começo grotesco.
Os fungos não perdoam ninguém. Seu arsenal enzimático é daqueles que transforma algo em nada. E quando tudo o que restar for esse nada, poderei me levantar.
Moby - Pale Horses
Tudo o que precisa saber de mim está sob esse leite derramado. Tudo o que quiser saber de mim está por dentro desse queijo amargo. A massa amarelada, insossa e quebradiça, é minha carne. O soro azedo, o meu sangue.
Ele fede, cheira a algo que deu desastrosamente errado. Ele sou eu. Por isso não tive coragem de oferecê-los aos ratos do meu quintal.
Preciso ver de perto este laticínio amarelar, emborrachar e mofar aqui em cima desta mesa. Quero ver, de perto, o fim de um começo grotesco.
Os fungos não perdoam ninguém. Seu arsenal enzimático é daqueles que transforma algo em nada. E quando tudo o que restar for esse nada, poderei me levantar.
Moby - Pale Horses
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Neurorréia nº2: Sintetizadores
Sintetizadores que me fizeram assim: uma síntese vital transtornada, sem torneio, nem tourada.
Da síntese, nasce a vida. Mas o sintético moderno nada tem de vivo.
Vive sintético, sentado, esperando ser usado e, posteriormente, descartado.
A Síntese que enriquece, e a Síntese que empobrece. Duas lindas damas de ferro, domadas apenas pelos seus doutores e mestres.
Vistosas damas compartilham a lendária lâmina de dois fios. Uma que corta, destrói, descasca a casca grossa até seu núcleo fino, macio e de fácil digestão. Outra lâmina divide, trinca e corta para rearranjar os escombros, recriando vida e algo ainda mais extraordinário.
Simian Mobile Disco - Synthesise (No Voodoo Edit)
Da síntese, nasce a vida. Mas o sintético moderno nada tem de vivo.
Vive sintético, sentado, esperando ser usado e, posteriormente, descartado.
A Síntese que enriquece, e a Síntese que empobrece. Duas lindas damas de ferro, domadas apenas pelos seus doutores e mestres.
Vistosas damas compartilham a lendária lâmina de dois fios. Uma que corta, destrói, descasca a casca grossa até seu núcleo fino, macio e de fácil digestão. Outra lâmina divide, trinca e corta para rearranjar os escombros, recriando vida e algo ainda mais extraordinário.
Simian Mobile Disco - Synthesise (No Voodoo Edit)
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Sistema Único de Saúde. Amém!
Chá de cadeira.
Chá de fila.
Chá de gente, atendentes.
Chá de encaminhamentos
Chá de falta de vagas
Chá de papéis
Chá de exames
Chá de falta de estrutura
Chá de dias, semanas, meses de espera.
Chá de paciência...
Moderat - Rusty Nails
Chá de fila.
Chá de gente, atendentes.
Chá de encaminhamentos
Chá de falta de vagas
Chá de papéis
Chá de exames
Chá de falta de estrutura
Chá de dias, semanas, meses de espera.
Chá de paciência...
Moderat - Rusty Nails
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Neurorréia nº1: Os Darkos
Em meados do ano passado (2009) me foi receitado medicamento para combater minha insônia. Curiosamente ele tinha um certo efeito alucinógeno se eu me mantivesse acordado depois de tomá-lo. De alguma forma, apesar do descontrole motor, meus pensamentos ficavam muito mais acelerados e ideias brotavam numa velocidade maior do que minhas mãos conseguiam digitar. Certa vez, num dia de muita depressão e sob efeito do tal remédio, escrevi um texto bizarro e bastante metafórico sobre a própria depressão. Depois de são pude editá-lo melhor. Os neologismos são propositais, mas não os erros de sintaxe e inadequação à nova ortografia. Dêem um desconto, ok?. Eis o resultado:
Meu período nao é rosa, é negro. Sem preconceito contra afrodescendentes pois o meu é negro. Aquele escuro em que se atola todo o corpo. Escuro denso que sinto roçar os pelos. Monstro preto, amorfo, tangendo minha superfície, esperando meu primeiro tropeço para rir bem alto e meter medo. Minha vida não é rosa, é negra, e entre o negroeiro irei pairar, caminhando cuidadosamente para não me machucar. Tem buracos, espinhos ocultos, tem mostrengos sacanas sacudos... Mas que não passem perto que eu os esmago as bolas!
Estarei vagando lentamente imerso na matéria escura semigasosa. Tal matéria não é apenas gás, posto que tem alma, tem vida, e vive a me vigiar. Vigiar para quando no primeiro passo em falso... "Hahahahahahaha"! A gargalhada infernal a me atormentar e confundir o meu caminho, por não querer me devolver à luz.
Sob a luz nos enxergamos, nos reconhecemos. Sob a luz nosso espírito fica autolimitado à embalagem corpórea, preso e seguro. Na lama gasosa não existe fronteira entre meu espírito e esse vapor detestável e maligno. Mas tudo que aprendi, quando sob a luz, haverá de servir para me livrar desse preto manto.
Aprendi que, com ajuda, posso iluminar minha mente e meu caminho. Posso afastar os vaporosos seres malignos que encobrem tudo e fazem daqui, escuridão eterna. A escuridão é eterna mas eu não sou eterno. Nem mesmo minha estadia aqui será do tamanho da minha vida. Não será, não poderá ser pois, se assim for condenado, eu acabo comigo mesmo antes que a sombra me sugue até a morte. Morte longa e dolorosa, uma relação parasitária na qual meus fluidos vão secando e minha luz se apagando.
Aqui existe um vazio que sob a luz não há. A luz penetra e faz-se matéria, enchendo a gente de energia nova para seguir em frente na batalha que é a vida. A luz filtra nossas células, nos desintoxica dos vapores negros, clareia e esclarece as pessoas, mostra-lhes o rumo oferecendo-lhes uma bússola que não poderia ser usada no escuro. A luz nos mostra o caminho para o melhor caminho, para as melhores companhias e para os mais extasiantes prazeres - combustíveis da alma.
A luz nos trás de volta da lama escura e atmosfera impura. Mas essa luz não é solar, é uma radiação metafísica. E quando essa fonte luminosa natural se esgota dentro de nós, vamos, aos poucos, indo para os cantos, depois para lonjuras, evitando pessoas iluminadas e a luz solar.
Os vapores negros de debaixo da terra sentem o cheiro de pessoas enfraquecidas, anuviadas e desnorteadas, que não sabem mais usar sua bússola. Entretanto, lá na lama, lá no fundo, a bússola seria mesmo inútil. Por isso, é pra lá que muitos vão por sentirem que é seu novo hábitat, acolhedor de sua nova identidade. Sem bússola, sem luz, vão para o fosso. Vão de encontro a um ambiente que corresponde ao extremo vazio interno, e por lá ficam até que um lampejo de luz se acenda e seja forte o suficiente para guiá-lo de volta até o topo. Longa caminhada...
Muito mais doloroso sair do que entrar. A entrada é a queda livre, a saída uma escalada com pouca luz e bússola quebrada. E nessa caminhada, por alguns instantes, a única luz pode até se apagar. E nesse breve momento, corre-se o risco de despencar e se enterrar ainda mais fundo na lama. Mais fundo do que seus companheiros de escuridez.
E até que alguma alma do país das luzes estenda a mão que salva, com toda força e vontade, por lá ficarão até a morte. Pseudo-existirão até morrerem de tédio, tristeza, suicídio, homicídio ou inanição. Para trazê-lo de volta é preciso coragem e amor pelo penumbro. Há que se doar parte da sua própria luz. Não se deve temer o abalo que sofrerá a própria aura, assim que exposta aos fluidos escuros.
Darkos: aqueles que têm a vida toda para ser vivida, mas não se enxergam como merecedores. Sentem na pele, mais do que ninguém, a perda dos pequenos prazeres da vida. No fundo, querem muito viver mas, sem luz, a única saída que alguns enxergam para o fim de tanta dor é a morte...
Todos sabem de sua existência, mas poucos são iluminados o suficiente para querer ajudá-los. São considerados a escória, seres contaminantes e, portanto, interessa a muitos que continuem a morar no fosso penumbro, de atmosfera imunda, para sempre.
A luz da qual os darkos têm fome não é elétrica, nem solar, é aquela que emana do contato próximo com o calor humano. Lá, no fosso, o frio é de rachar os lábios e de trincar os ossos dos mais fracos. Aquele é o ferro-velho do seres orgânicos de alma ainda viva. No fosso, ninguém presta, ninguém faz, ninguém movimenta, ninguém produz e a ninguém interessa. É onde os que vieram com defeito de fabricação são descartados.
Fever Ray - If I Had A Heart
Eu, cidadão-não-cidadão, continuo na mesma. Não fodo com ninguém, e ninguém fode comigo também. Nem calor aqui dentro eu tenho mais. E se não existe calor, de onde brotará o amor? Aquele deus pagão do qual todos falam, o Amor, onipresentre nas mentes dos apaixonados, que se tornam infantilizados tamanha é a simplificação de suas atividades mentais nesse período rosa.
Meu período nao é rosa, é negro. Sem preconceito contra afrodescendentes pois o meu é negro. Aquele escuro em que se atola todo o corpo. Escuro denso que sinto roçar os pelos. Monstro preto, amorfo, tangendo minha superfície, esperando meu primeiro tropeço para rir bem alto e meter medo. Minha vida não é rosa, é negra, e entre o negroeiro irei pairar, caminhando cuidadosamente para não me machucar. Tem buracos, espinhos ocultos, tem mostrengos sacanas sacudos... Mas que não passem perto que eu os esmago as bolas!
Estarei vagando lentamente imerso na matéria escura semigasosa. Tal matéria não é apenas gás, posto que tem alma, tem vida, e vive a me vigiar. Vigiar para quando no primeiro passo em falso... "Hahahahahahaha"! A gargalhada infernal a me atormentar e confundir o meu caminho, por não querer me devolver à luz.
Sob a luz nos enxergamos, nos reconhecemos. Sob a luz nosso espírito fica autolimitado à embalagem corpórea, preso e seguro. Na lama gasosa não existe fronteira entre meu espírito e esse vapor detestável e maligno. Mas tudo que aprendi, quando sob a luz, haverá de servir para me livrar desse preto manto.
Aprendi que, com ajuda, posso iluminar minha mente e meu caminho. Posso afastar os vaporosos seres malignos que encobrem tudo e fazem daqui, escuridão eterna. A escuridão é eterna mas eu não sou eterno. Nem mesmo minha estadia aqui será do tamanho da minha vida. Não será, não poderá ser pois, se assim for condenado, eu acabo comigo mesmo antes que a sombra me sugue até a morte. Morte longa e dolorosa, uma relação parasitária na qual meus fluidos vão secando e minha luz se apagando.
Aqui existe um vazio que sob a luz não há. A luz penetra e faz-se matéria, enchendo a gente de energia nova para seguir em frente na batalha que é a vida. A luz filtra nossas células, nos desintoxica dos vapores negros, clareia e esclarece as pessoas, mostra-lhes o rumo oferecendo-lhes uma bússola que não poderia ser usada no escuro. A luz nos mostra o caminho para o melhor caminho, para as melhores companhias e para os mais extasiantes prazeres - combustíveis da alma.
A luz nos trás de volta da lama escura e atmosfera impura. Mas essa luz não é solar, é uma radiação metafísica. E quando essa fonte luminosa natural se esgota dentro de nós, vamos, aos poucos, indo para os cantos, depois para lonjuras, evitando pessoas iluminadas e a luz solar.
Os vapores negros de debaixo da terra sentem o cheiro de pessoas enfraquecidas, anuviadas e desnorteadas, que não sabem mais usar sua bússola. Entretanto, lá na lama, lá no fundo, a bússola seria mesmo inútil. Por isso, é pra lá que muitos vão por sentirem que é seu novo hábitat, acolhedor de sua nova identidade. Sem bússola, sem luz, vão para o fosso. Vão de encontro a um ambiente que corresponde ao extremo vazio interno, e por lá ficam até que um lampejo de luz se acenda e seja forte o suficiente para guiá-lo de volta até o topo. Longa caminhada...
Muito mais doloroso sair do que entrar. A entrada é a queda livre, a saída uma escalada com pouca luz e bússola quebrada. E nessa caminhada, por alguns instantes, a única luz pode até se apagar. E nesse breve momento, corre-se o risco de despencar e se enterrar ainda mais fundo na lama. Mais fundo do que seus companheiros de escuridez.
E até que alguma alma do país das luzes estenda a mão que salva, com toda força e vontade, por lá ficarão até a morte. Pseudo-existirão até morrerem de tédio, tristeza, suicídio, homicídio ou inanição. Para trazê-lo de volta é preciso coragem e amor pelo penumbro. Há que se doar parte da sua própria luz. Não se deve temer o abalo que sofrerá a própria aura, assim que exposta aos fluidos escuros.
Darkos: aqueles que têm a vida toda para ser vivida, mas não se enxergam como merecedores. Sentem na pele, mais do que ninguém, a perda dos pequenos prazeres da vida. No fundo, querem muito viver mas, sem luz, a única saída que alguns enxergam para o fim de tanta dor é a morte...
Todos sabem de sua existência, mas poucos são iluminados o suficiente para querer ajudá-los. São considerados a escória, seres contaminantes e, portanto, interessa a muitos que continuem a morar no fosso penumbro, de atmosfera imunda, para sempre.
A luz da qual os darkos têm fome não é elétrica, nem solar, é aquela que emana do contato próximo com o calor humano. Lá, no fosso, o frio é de rachar os lábios e de trincar os ossos dos mais fracos. Aquele é o ferro-velho do seres orgânicos de alma ainda viva. No fosso, ninguém presta, ninguém faz, ninguém movimenta, ninguém produz e a ninguém interessa. É onde os que vieram com defeito de fabricação são descartados.
Fever Ray - If I Had A Heart
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